AS CRIANÇAS INDÍGENAS NO CANADÁ por Luísa Lobão Moniz

 

Num dia de Verão, em 1968, em Saskatchewan, com cinco anos, Bezhig Little Bird foi retirada à força da Reserva Long Pine e adotada por uma família judia, em Montreal, que a batizou como Esther Rosenblum.

Bezhig Litle Bird tinha dois irmãos mais novos e todos foram retirados dos braços da mãe e da reserva Long Pine para serem adotados.

Antes da adoção, as crianças frequentavam uma residential school, muitas delas geridas pela igreja católica.

A polícia e os serviços sociais de proteção de menores agiram para o bem das crianças (para tu próprio bien), como Alice Miller designou o aniquilamento da alma infantil.

Esther encontra os documentos da sua adoção e recortes de jornais que a fazem relembrar a sua infância feliz, antes de ser internada numa residential school, e resolve ir à procura da sua família verdadeira.

A RTP 2 está a transmitir ‘Little Bird’, em que uma mulher judia descobre o seu traumático passado indígena. É uma história baseada em dados reais em que toda a Criança Importa.

Foram encontradas, no Canadá, várias valas comuns com restos mortais, não identificados, de mais de 1000 crianças indígenas que viviam nas escolas residenciais (residential schools), um sistema de internatos que tinha como objetivo a assimilação forçada das populações indígenas à cultura ocidental.

Setenta por cento destes internatos eram geridos por congregações religiosas católicas. O objetivo destes internatos era promover o extermínio dos povos indígenas para que os territórios fossem apropriados pelos colonizadores ingleses e franceses.

O papa Francisco pediu perdão nesta segunda-feira (25 de Março de 2024) “pelo mal que tantos cristãos cometeram contra os povos indígenas” do Canadá.  

A última residential school foi fechada em 1996!

Devido à indignação dos canadianos, que desconheciam esta realidade, foi criado um acordo entre o Poder Judiciário e a Assembleia das Primeiras Nações (organização que representa os povos indígenas a nível nacional no Canadá) e o Governo Federal, que resultou na implementação de medidas de justiça de transição com a criação de uma Comissão da Verdade e Reconciliação (CVR).

Criada em 2008, a CVR dedicou-se especificamente à investigação das violações de Direitos Humanos cometidas contra crianças indígenas em tais internatos.

Até 2015 a Comissão ouviu seis mil sobreviventes e divulgou que três mil e duzentas crianças indígenas tinham morrido por suicídio, afogamento, acidente, e por razões ainda não identificadas nas residential schools.

Os povos indígenas, no Canadá, foram vítimas de genocídio cultural através do regime de residential schools.

As escolas privaram as crianças da sua cultura e língua nativa, com o objetivo de lhes proporcionar uma educação cristã euro-canadiense. As escolas tornaram-se conhecidas pelo abuso físico, sexual e psicológico e pelas altas taxas de mortalidade.

 “Sixties Scoop” era uma política no Canadá entre as décadas de 1960 e 1980 que arrancou milhares de crianças indígenas das suas famílias e as colocou no sistema de bem-estar infantil.

A mãe adotiva de Litle Bird, Golda Rosenblum, nasceu na Polónia, sobreviveu ao Holocausto e veio para o Canadá ainda adolescente, tendo perdido toda a família em Auschwitz.

Os pais adotivos eram aconselhados a apagar o passado de seus novos filhos indígenas, que eram apresentados como maltratados ou abandonados. 

A História da Criança é feita de sofrimentos vários.

As crianças não poderão ser amadas e protegidas como é exigido pelos Direitos Humanos, Pela Declaração dos Direitos da Criança?

 

2 Comments

  1. Nada me surpreende. Fala-se muito dos crimes – e muitos foram – do colonilaismo europeu, em que os portugueses foram co-participantes activos. Mas os outros: antes do Hitler, Leopoldo II fez muito pior no seu Congo pessoal, secundado por ingleses e franceses. Estas histórias raramente são contadas. E hoje, o que é a África das independências? São os autóctones de Angola, Moçambique, Guiné mais livres e autónomos do que eram antes? Atenção: critico frontalmente o “antes”, mas o “agora” ainda é pior, muito pior,
    Relembro sobretudo os grandes princípios políticos, morais e sociais dos norte-americanos: podem fazê-lo: foram os únicos que pura e simplesmente destruiram fisicamente os autóctones. Ainda privei com a bisneta de um chefe sioux: a pior babárie de todos os tempos. Estude-se, descreva-se, e escreva-se.
    E o crime de cerca de 1% do Planeta ficar com 50% dos bens existentes e/ou produzidos e esquecer-se do que resta para os 50% mais pobres, que esrão simplesmente norrendo de fome? Resta-nos a universal solidariedade pascal e a rápida ascenção aos Céus dos assassinados em Gaza – jóvens e seres que nem sairam da barriga das mães – pelos descendentes dos assassinados em Auschwitz. É assim a fraternidade universal.
    José de Almeida Serra

  2. uma forma encapotada de genocídio que coloca franjas da Cristandade ao nível do genocídio agora praticado pelos sionistas. A religião bloqueia a solidariedade entre os humanos e poderia não ser assim.

Leave a Reply